Dentre as brincadeiras bobas que a gente fazia quando era criança, estava aquela do “Mamãe mandou eu bater neste daqui”, recurso infalível que usávamos quando tínhamos de escolher alguma coisa e não fazíamos a menor ideia de qual opção seria a melhor. Brincando assim, a escolha era feita meio na base da sorte, sem objetivo específico nenhum. Simplesmente a mão “caía” nesta ou naquela alternativa e pronto: a decisão estava tomada!

Os críticos da doutrina da eleição incondicional acusam seus defensores de ensinar um método de escolha divina semelhante a esse. “Por sorte”, dizem, “fulano foi escolhido, enquanto o outro foi muito azarado e ficou de fora”. Eu entendo a crítica e acho que faz até algum sentido. De fato, considerando meus “méritos”, foi muita “sorte” o Senhor ter dirigido sua graça eletiva para mim e não para o vizinho que mora ao lado, sendo que ambos merecíamos o mesmo castigo. Isso, porém, na verdade, sem querer bancar o santinho, nunca me fez ficar inconformado com os “métodos” de Deus, mas tão somente um pouco perplexo, da mesma forma que Agostinho de Hipona ficou ao lidar com esses assuntos:

“Por que é dado a um, não a outro? Não me acanho em dizer: esta é a profundidade da cruz! Da profundeza não sei de que dos juízos de Deus, que não podemos perscrutar, procede tudo o que podemos. O que posso, vejo; de onde posso, não vejo, exceto que até onde vejo, isso provém de Deus. Mas, por que esse e não aquele? É muito para mim. É um abismo: a profundeza da cruz! Posso exclamar em admiração, não posso demonstrá-lo em arguição” (AGOSTINHO DE HIPONA. Sermões CXXXI e CLXV. PLM, vol. XXXVIII. p. 730, 905.).

E o bispo de Hipona foi além, censurando aqueles que, meio irritados, tentam entender o sentido dessas coisas: 

“Tu, um homem, esperas de mim uma resposta, e eu sou também apenas um homem. Portanto, ouçamos ambos aquele que diz: “Ó homem, tu quem és?” (Rm 9.20). Melhor é a ignorância fiel que o saber temerário. Busca méritos; não acharás, a não ser punição: “Oh, profundeza!” (Rm 11.33). Pedro nega; o ladrão crê: “Oh, profundeza!”. Buscas tu a razão? Eu me arrecearei da profundeza. Tu arrazoas, eu me maravilharei; tu disputas, eu crerei; vejo a profundeza, ao fundo não chego. Paulo se aquietou porque achou admiração. Chama ele inescrutáveis os juízos de Deus, e tu vieste perscrutá-los? Diz ele insondáveis os seus caminhos, e tu os esquadrinhas?” (AGOSTINHO DE HIPONA. Sermão XXVII. PLM, vol. XXXVIII, p. 179-182.).

Ainda que esse assunto seja mesmo envolvido numa espécie de névoa que impede nossa clara compreensão, existe, creio eu, uma realidade ligada à doutrina da eleição que talvez nos ajude, pelo menos, a mitigar um pouco a falsa noção de uma decisão divina na base do “Mamãe mandou”, como sugerem especialmente os arminianos.

Essa realidade se baseia no uso do verbo “conhecer” (yāda), presente em algumas passagens do Antigo Testamento. De acordo com Kenneth A. Mathews, em seu The New American Commentary (volume 1B), esse verbo, eventualmente, é adotado na linguagem pactual no sentido de “escolher”. Os exemplos que Mathews fornece são Gênesis 18.19, Jeremias 1.5, Oseias 13.5 e Amós 3.2. Em todas essas passagens, o verbo “conhecer” (yāda) é usado no sentido de “escolher”. Aliás, nas passagens de Gênesis e de Amós, os tradutores das nossas Bíblias em português tendem a perceber isso e traduzem yāda diretamente como “escolher”.

De que forma, porém, esse uso excepcional do referido verbo ajuda em nossa discussão? Muito simples: se conhecer assume, eventualmente, a nuança de escolher, isso aponta para uma escolha conectada a noções de familiaridade e intimidade.

Trocando em miúdos: Deus, quando nos escolheu, não o fez na base da “sorte”, decidindo tudo com uma roleta. Não! Em vez disso, ele olhou realmente para nós, viu a nossa face, contemplou os contornos específicos da nossa miséria individual, atentou para o nosso nome, nossa história, nossos caminhos lamacentos e nossos destinos espinhosos. Com efeito, ele observou fixamente o aperto do nosso coração sangrento, a dureza da nossa alma rebelde e a ignorância da nossa mente inapta. Então, fitando o nosso rosto e conhecendo-nos profundamente, teve misericórdia e compaixão, incluindo-nos, por pura graça, no grupo de seus eleitos.

Que “sorte” a nossa, é verdade! Mas não foi uma “sorte” na base do acaso ou do chute. Foi um benefício dirigido a nós por alguém que nos “conheceu de antemão” (Rm 8.29-30) e, apesar da indignidade e miséria que viu, decidiu socorrer graciosamente, não incluindo outros na mesma graça, por razões que Paulo e Agostinho jamais souberam explicar. 

Eu sei, eu sei… Essas coisas não lançam luz alguma sobre a raiz da forma como Deus administra seu favor, escolhendo este e rejeitando aquele. Seus caminhos, como já frisei, permanecem inescrutáveis nesse aspecto. Porém, os fatos expostos aqui fazem com que tenhamos uma noção mais clara do amor particular do Senhor, que nos escolheu apesar de nos conhecer, destacando que ele tratou com amor não uma massa de pessoas sem rosto premiadas por acaso e a esmo num sorteio supra-histórico, mas sim cada uma das suas ovelhas então perdidas, sabendo o nome, endereço, RG e CPF de todas elas.

Não sei quanto a você, mas esse trato pessoal e individual de Deus no lidar com essas coisas, para mim, faz bastante diferença, e faz com que eu diga com mais força e sinceridade: “Muito obrigado, meu Deus!”.

Pr. Marcos Granconato

Soli Deo gloria